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HubCovid discute medidas diante do impacto da pandemia na saúde mental dos brasileiros

Em encontro híbrido, HubCovid reuniu profissionais de Epidemiologia, Infectologia, Sanitarismo, Psicologia, Psiquiatra e em Gestão da Saúde Pública, incluindo o Ministério da Saúde, para discutir vacinação, saúde mental e outros desafios do SUS no cenário “pós-Covid-19

Em encontro promovido pelo HubCovid em São Paulo no dia 11 de setembro, se reuniram especialistas e gestores de saúde pública para analisar o impacto da pandemia na população brasileira e propor ações efetivas para o Brasil pós-pandêmico. O evento, na íntegra, está disponível em vídeo no canal do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) no YouTube.

Os participantes foram Rodrigo Martins Leite, médico psiquiatra, professor e coordenador do Programa de Psiquiatria Social e Cultural (PROSOL) – IPq HCFMUS e ex-coordenador de saúde mental do município de São Paulo; Catarina Dahl, psicóloga sanitarista, doutora em Saúde Mental (IPUB/UFRJ), além de consultora em Saúde Mental em nível nacional e internacional, tendo colaborado com diversos organismos multilaterais, como o Banco Mundial, Fundo de População das Nações Unidas e Organização Mundial da Saúde e Marcelo Kimati Dias, médico psiquiatra, doutor em ciências sociais, professor do departamento de saúde coletiva da UFPR e assessor de relações institucionais do departamento de Saúde mental do Ministério da Saúde.

A pandemia de Sars-CoV-2 exacerbou fatores de risco para a saúde mental que já estavam presentes antes da chegada do vírus. Havia inequidades sociais e econômicas como desemprego e pobreza; desigualdade de gênero; violência; racismo e discriminação; insegurança alimentar, emergências humanitárias e mudanças climáticas. Na saúde, vivenciou-se o luto, isolamento e, principalmente, no caso dos profissionais de saúde, a sobrecarga de trabalho, que afetou diretamente a saúde mental.

Em sua apresentação, a psicóloga e sanitarista Catarina Dahl trouxe evidências de que 75% a 90% das pessoas, sobretudo em países de baixo-médio poder econômico, não têm acesso ao tratamento de saúde mental; uma em cada cinco pessoas em contextos de conflitos armados vive com alguma condição de saúde mental; a economia global perde mais de US$ 1 trilhão por ano devido à depressão e ansiedade, com o gasto médio em saúde mental correspondendo a 2-3% do gasto total da saúde em países de médio-baixo poder econômico, sendo que a maior parte dos gastos (60%) destina-se a hospitais psiquiátricos.

“Esse cenário, que já era ruim, se agravou na pandemia. Sofremos com a diminuição do PIB, acompanhado do aumento da pobreza, violência interpessoal e da insegurança alimentar, além de termos vivenciado a disrupção de serviços”, lamenta Catarina Dahl. Segundo a especialista, 45% dos países do mundo relataram disrupções nos serviços para tratamento de condições de saúde mental, neurológicas e usos de substâncias

Ainda em relação aos dados de impacto global da pandemia, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), houve cerca de 25% de aumento na prevalência de depressão e ansiedade no primeiro ano de pandemia, em lugares altamente afetados pela Covid-19; mulheres foram mais afetadas que homens, jovens de 19 a 24 foram mais afetados que pessoas mais velhas. Já os dados sobre a mortalidade por suicídio são variados e não indicam claramente uma mudança nas taxas desde o início da pandemia. Ainda segundo a OMS, dados de países de baixo e médio poder econômico são frágeis ou inexistentes. “O que mostra que o cenário real é ainda mais preocupante”, reforça Catarina Dahl.

A psicóloga e sanitarista ressalta a necessidade de se aplicar uma abordagem de toda a sociedade (a whole-of-society-approach) para promover, proteger e cuidar da saúde mental ao longo da vida; integrar a saúde mental em todas as políticas; entender a Saúde Mental e Apoio Psicossocial como parte integral da cobertura universal à saúde e um componente fundamental para o desenvolvimento, recuperação social e econômica de indivíduos, sociedades e países após emergências e a construção da paz, assim como ser ofertada uma abordagem sensível ao gênero e de combate ao racismo e discriminação.

Desafios em um país grande e heterogêneo – Em sua fala, o médico psiquiatra Rodrigo Martins Leite destacou o fato de o Brasil ser um país heterogêneo, com muita disparidade regional. “Em meio a uma grande complexidade, o SUS precisa dar conta de diferentes necessidades, que exigem vários níveis de governança de linhas de cuidado em saúde mental”, afirma. Ainda segundo o especialista, a linha de cuidado, que envolve a promoção, prevenção, tratamento e reabilitação, deve oferecer acolhimento, escuta qualificada e construção de vínculo. “Se faz necessário um projeto terapêutico que faça sentido para aquele indivíduo, que seja singular, de acordo com a vivência, as perspectivas e o contexto social daquela pessoa e que leva em conta, inclusive, as dimensões e características do município em que ele vive”, explica Leite.

Segundo o médico psiquiatra Marcelo Kimati Dias, todos os ideais que estão contidos dentro da saúde mental no Brasil são produto do Sistema Único de Saúde. “A gente ter a política de saúde mental com o protagonismo e a liderança do SUS é garantia de que vai ser uma política que vai promover equidade, dar acesso universal ou que, ao menos, ela vai lutar nesse sentido de promover um cuidado integral”, enaltece.

Sobre o HubCovid – É uma iniciativa do Instituto de Pesquisa e Apoio ao Desenvolvimento Social (IPADS), Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS) e Fundação Johnson & Johnson. É uma plataforma, disponível em http://hubcovid.org.br/, que reúne infectologistas, epidemiologistas, sanitaristas e virologistas com a proposta de disseminar conhecimento científico para gestores e profissionais da saúde envolvidos no combate à pandemia no Brasil.

Sobre o IPADS – O IPADS é uma organização sem fins lucrativos, que atua na perspectiva de contribuir com o desenvolvimento social e com a melhoria da qualidade de vida da população, apoiando a formulação, implantação e avaliação de políticas, programas e projetos. O trabalho do Instituto é caracterizado pela interdisciplinaridade, principalmente pela atuação conjunta de seus associados que buscam uma abordagem integral das necessidades do cidadão.

Sobre o CONASEMS – O Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS) nasceu a partir do movimento social em prol da saúde pública e se legitimou como uma força política, que assumiu a missão de agregar e de representar as 5570 secretarias municipais de saúde do país. Desde 1988, promove e consolida um novo modelo de gestão pública de saúde baseado em conceitos como descentralização e municipalização.

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