
Novo sistema de impostos sobre consumo altera lógica econômica das obras e exige adaptação operacional das empresas a partir de 2026
A construção civil brasileira está prestes a enfrentar uma das maiores mudanças estruturais das últimas décadas — e, desta vez, o impacto não vem do mercado, mas do sistema tributário. A reforma do consumo, instituída pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e regulamentada pela Lei Complementar nº 214/2025, deve alterar profundamente a forma como as obras são planejadas, executadas e financeiramente estruturadas no país.
Com a criação da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), o Brasil passa a adotar um modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA), substituindo tributos como PIS, Cofins, ICMS, ISS e parte do IPI. Na prática, a mudança vai além da simplificação tributária.
A transição começa em 2026, com a introdução dos novos tributos nas notas fiscais, ainda com alíquotas reduzidas para teste, e segue até 2033, quando o novo sistema estará plenamente implementado. “Durante esse período, as empresas terão que conviver com dois modelos tributários simultaneamente, o que aumenta a complexidade operacional e exige revisão de processos, sistemas e estratégias financeiras”, entende Rui Gonçalves, fundador da AltoQi.
Com sede em Florianópolis, a AltoQi é considerada uma das principais referências nacionais em software para engenharia, atendendo dezenas de milhares de profissionais e empresas do setor com soluções baseadas na metodologia BIM (Building Information Modeling). Gonçalves acompanha há mais de 30 anos a evolução técnica e produtiva da construção civil brasileira, tendo atuado também como liderança no ecossistema de inovação e digitalização do setor.
Para ele, a reforma não muda só o imposto — muda a lógica econômica da construção civil.
Nova lógica muda decisão dentro da obra
Um dos principais efeitos da reforma está na forma como os custos passam a ser tratados ao longo da cadeia produtiva. Com a não cumulatividade plena, empresas poderão aproveitar créditos tributários sobre bens e serviços adquiridos. Por outro lado, despesas com folha de pagamento não geram esse mesmo benefício.
“Se eu terceirizar e comprar um serviço pronto, eu gero crédito. Se eu tiver equipe própria, não. Isso muda completamente a decisão dentro da obra”, explica Gonçalves.
Na prática, o sistema passa a incentivar modelos mais organizados, com maior integração entre fornecedores e maior previsibilidade de custos — ao mesmo tempo em que penaliza estruturas baseadas em improviso e baixa eficiência.
Fim do efeito cascata aumenta pressão por eficiência
Outro ponto central da reforma é a eliminação gradual do chamado “efeito cascata”, em que impostos incidem sobre impostos ao longo da cadeia. Com isso, os custos passam a ser mais transparentes, o que reduz distorções históricas e aumenta a pressão por eficiência operacional dentro das construtoras.
Esse novo ambiente tende a impactar diretamente as margens do setor, especialmente em empresas com baixo nível de controle ou planejamento.
“A construção sempre conviveu com desperdícios que eram absorvidos ao longo do processo. Agora isso aparece com mais clareza no resultado”, afirma o fundador da AltoQi.
Exigência de controle e rastreabilidade aumenta
A mudança também eleva o nível de exigência na gestão das empresas. O novo modelo tributário demanda maior controle sobre insumos, serviços e etapas da obra, com rastreabilidade das operações para garantir o correto aproveitamento de créditos.
Nesse cenário, o uso de tecnologia deixa de ser diferencial e passa a ser necessidade operacional. Ferramentas digitais e integração de dados ganham protagonismo ao permitir maior precisão no planejamento, na execução e na gestão financeira dos projetos.
Setor terá que se adaptar — ou perder competitividade
Embora ainda existam incertezas sobre o impacto final da carga tributária na construção civil, especialistas apontam que a mudança exigirá adaptação rápida por parte das empresas. A reforma tende a favorecer companhias mais estruturadas, com maior nível de organização, planejamento e controle, ampliando a distância competitiva em relação a empresas menos eficientes.
“O mercado reage a resultado. Quem conseguir se adaptar mais rápido vai sair na frente”, afirma Gonçalves.
Mudança abre caminho para novos modelos produtivos
Como efeito indireto, a nova lógica tributária deve acelerar transformações já em curso no setor.
Modelos produtivos mais industrializados, baseados em sistemas prontos e fornecedores especializados, tendem a ganhar espaço por oferecer maior eficiência e melhor aproveitamento tributário.
Ao mesmo tempo, o planejamento antecipado e o uso de projetos digitais passam a ter impacto não apenas técnico, mas também econômico e fiscal dentro das obras.


