
Enquanto parte da indústria migra em busca de custos menores, a Quintess aposta na qualidade e na economia local, gerando empregos e impulsionando pequenas confecções
A lógica atual do varejo parece pressionar as indústrias do Brasil a cruzarem suas próprias fronteiras. De um lado, a concorrência das plataformas asiáticas de ultra fast fashion. De outro, o Paraguai, cuja Lei de Maquila já atraiu mais de 200 empresas brasileiras com a promessa de energia subsidiada, menor carga tributária e custos trabalhistas reduzidos.
Na contramão desse movimento, a Quintess, marca de moda feminina do Grupo Posthaus, sediado em Blumenau (SC), um dos maiores polos têxteis do país, opta por manter sua produção em solo nacional, provando ser um caminho economicamente viável. A decisão estratégica não se baseia em um discurso patriótico, mas em uma avaliação rigorosa de previsibilidade operacional, governança e velocidade de resposta ao mercado consumidor.
“A análise de custos precisa ir muito além do valor direto de fabricação. Quando produzimos perto do nosso mercado consumidor, trabalhamos com parceiros estratégicos com os quais construímos relações de longo prazo, baseadas em conformidade e desempenho. Isso nos permite responder rapidamente às oscilações de demanda, reduzir os prazos de entrega e exercer um controle rigoroso sobre a qualidade do produto”, afirma Robson Parzianello, Diretor Comercial do Grupo Posthaus.
Custos ocultos na planilha
O que, à primeira vista, se apresenta como uma economia imediata de manufatura internacional, esconde valores indiretos de alta relevância. Em um mercado dinâmico e volátil, a busca pelo menor custo unitário em outros países tende a inflar a dependência logística, alongar os ciclos de produção e expor a operação financeira à volatilidade cambial.
A proximidade geográfica com os fornecedores, por outro lado, acelera o ciclo de desenvolvimento de produto da Quintess. Ajustes finos de modelagem, testes de toque de tecido e correções de caimento são realizados de forma quase instantânea, sem barreiras alfandegárias, logísticas ou de fuso horário. O resultado prático é uma operação comercial responsiva, alinhada entre a intenção original do design e o produto que chega às mãos do consumidor.
“Conseguimos alterar a produção em poucos dias. Em casos de alta demanda, a reposição é rápida. Já em situações em que o produto não performa como esperado, conseguimos comprar lotes menores para equilibrar estoque. Em muitos casos, um custo unitário menor não compensa perdas geradas por atraso ou pela falta de aderência ao mercado”, explica Parzianello.
Além dos ganhos corporativos, ao produzir integralmente no Brasil, o grupo movimenta uma rede de pequenas e médias empresas parceiras e fornecedores de insumos que dependem da previsibilidade dos pedidos para investir, crescer e gerar empregos formais. Essa operação forma um ecossistema encadeado que sustenta a atividade econômica regional, conectando confecções, facções, fornecedores de insumos e beneficiadoras ao longo de toda a cadeia produtiva nacional.
Uma operação construída no Brasil
Por trás dessa operação, o Grupo Posthaus reúne cerca de 390 colaboradores diretos em Blumenau. A empresa concentra atividades de tecnologia, inteligência de dados, e-commerce, logística e desenvolvimento de produto, enquanto a fabricação é realizada por parceiros industriais nacionais especializados.
“A valorização da produção nacional também ganha relevância em um momento em que consumidores e investidores observam com mais atenção os impactos sociais das empresas. Embora fatores como preço e prazo ainda tenham peso importante na decisão de compra, cresce a percepção sobre a importância de fortalecer a economia local, preservar empregos e manter a capacidade produtiva no país”, complementa o diretor.
Nesse contexto de transformação do varejo de moda, o grupo reforça a sua aposta em um modelo produtivo profundamente integrado ao país, provando que proximidade mercadológica, eficiência financeira extrema e impacto socioeconômico local podem — e devem — caminhar juntos como vantagens competitivas de mercado.


