
Dor, insônia, cansaço e alterações no comportamento podem levar o paciente ao médico antes que ele reconheça estar passando por sofrimento emocional
Uma dor de cabeça que não passa, noites mal dormidas, cansaço persistente ou até problemas digestivos. Nem sempre quem procura atendimento médico por esses motivos imagina que a consulta também pode abrir espaço para falar sobre saúde mental. Muitas vezes, o paciente chega ao consultório preocupado com um sintoma físico, enquanto mudanças no humor, no comportamento ou na rotina ainda não foram percebidas como parte do problema.
“Às vezes, o paciente procura o médico com uma queixa específica: uma dor de cabeça que pode levar ao neurologista, ou uma dor de estômago, ao gastroenterologista. Mas também é importante perguntar como ele está, como está se sentindo, como está o humor, se está dormindo bem ou se está tendo muito cansaço”, explica o médico de família e comunidade Eduardo Trevizoli Justo.
Na Medicina de Família e Comunidade (MFC), o acompanhamento ao longo do tempo permite acrescentar uma informação importante à consulta: conhecer como aquela pessoa costuma estar. Como dormia? Era comunicativa ou mais reservada? Mantinha uma rotina ativa? Trabalhava, saía, encontrava amigos? Continuava fazendo as atividades de que gostava? Quando alguma coisa muda, essa diferença pode chamar a atenção.
Quando o sintoma é apenas a porta de entrada
Depressão e ansiedade nem sempre são percebidas inicialmente pelo próprio paciente. Alterações no sono, cansaço persistente, perda de interesse pelas atividades, mudanças de apetite e comportamento ou sintomas físicos podem aparecer antes que ele reconheça um possível sofrimento emocional.
Nos transtornos de ansiedade, por exemplo, as linhas de cuidado do Ministério da Saúde apontam os sintomas físicos sem explicação médica como uma das principais formas de apresentação na Atenção Primária.
É nesse momento que a conversa pode fazer diferença. “O primeiro passo é deixar o paciente falar”, resume Eduardo. A escuta, porém, não significa transformar automaticamente tristeza, preocupação ou uma fase difícil em diagnóstico. É preciso compreender o contexto, há quanto tempo os sintomas estão presentes, sua intensidade e o impacto que provocam na vida daquela pessoa.
A dimensão do problema ajuda a explicar a importância dessa atenção. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente 332 milhões de pessoas vivam com depressão no mundo e 359 milhões tenham algum transtorno de ansiedade.
O que mudou desde a última consulta?
Para o médico de família e comunidade, uma das vantagens do acompanhamento continuado é ter uma referência para perceber mudanças. “É como alguém da família. Se você chega em casa e percebe que seu filho ou seu pai está diferente, você nota. Com o paciente que a gente acompanha e conhece, também conseguimos perceber mais precocemente alguma coisa que esteja acontecendo”, afirma Eduardo.
Uma pessoa que sempre foi comunicativa pode estar mais calada. Alguém que mantinha uma rotina ativa pode ter deixado de sair ou abandonado atividades de que gostava. O sono e o apetite podem ter mudado. O rendimento no trabalho pode ter caído. Também podem surgir irritabilidade, isolamento ou queixas físicas recorrentes.
Nenhuma dessas alterações, isoladamente, significa depressão ou ansiedade. O que chama a atenção é a mudança em relação ao padrão daquela pessoa e a combinação desses sinais com o histórico e o contexto de vida. “Existe uma mudança em relação ao que aquela pessoa fazia antes. É isso que chama a atenção”, explica Eduardo.
Esse olhar também merece atenção entre os idosos. Em alguns casos, são os próprios familiares que percebem primeiro que o pai ou a mãe deixou de comer, sair de casa ou realizar atividades que faziam parte da rotina. Além da investigação de possíveis causas físicas, a conversa pode revelar perdas, luto, solidão, isolamento ou outros fatores relacionados ao sofrimento emocional.
Perceber não é diagnosticar
Identificar que alguma coisa mudou é apenas o início da avaliação. O médico precisa considerar sintomas, histórico, condições clínicas, contexto familiar e social e o impacto daquela situação na vida do paciente.
Quando indicado, instrumentos de rastreamento também podem auxiliar nessa investigação. O PHQ-9, por exemplo, é recomendado pelo Ministério da Saúde para rastrear sintomas de depressão em pacientes com fatores de risco ou queixas relacionadas ao humor. O resultado, entretanto, não estabelece sozinho o diagnóstico, que é clínico e depende da avaliação médica.
A partir da avaliação, o cuidado pode envolver acompanhamento pelo próprio médico, intervenções não farmacológicas, psicoterapia, medicamentos quando indicados e atuação conjunta com outros profissionais. Casos mais complexos podem exigir avaliação psiquiátrica ou acompanhamento compartilhado com outros serviços.
As linhas de cuidado do Ministério da Saúde preveem que a Atenção Primária participe da identificação, avaliação e acompanhamento dos transtornos mentais, articulando outros pontos da rede conforme a necessidade. “Não é apenas tratar o sintoma. É importante entender o que está acontecendo com aquela pessoa e quais fatores estão relacionados àquele sofrimento”, afirma Eduardo.
O que acontece fora do consultório também importa
Entender o contexto é parte da investigação. Desemprego, insegurança financeira, conflitos familiares, perdas, violência e isolamento podem aumentar a vulnerabilidade ao sofrimento emocional. A OMS destaca que a depressão resulta da interação entre fatores sociais, psicológicos e biológicos e associa experiências adversas, como desemprego, luto e eventos traumáticos, a maior risco.
“Às vezes, a pessoa está ansiosa porque pode perder o emprego ou porque depende daquele emprego para sustentar a casa. É preciso entender também o que está acontecendo na vida dela”, exemplifica Eduardo.
É por isso que, na Medicina de Família e Comunidade, a consulta não se limita à queixa que levou o paciente ao consultório. Sintomas, histórico, comportamento, relações e contexto ajudam a formar um quadro mais amplo sobre aquela pessoa. Em um atendimento isolado, insônia, cansaço ou uma mudança de comportamento podem parecer consequência de uma fase difícil. No acompanhamento ao longo do tempo, existe uma referência sobre como aquele paciente costumava estar. Isso não significa diagnosticar depressão ou ansiedade porque alguém “está diferente”. Significa perceber que alguma coisa mudou e fazer novas perguntas. E, muitas vezes, é justamente dessa pergunta que o cuidado começa.


